Iná Uehara

A força do orgânico

A cerâmica de Iná Uehara tem o poder de magnetizar o observador pela maneira como ela desenvolve as formas orgânicas. Esse resultado, buscado por muitos, surge nela de uma forma bastante natural, o que pode levar a imaginar que isso ocorra por ter nascido, em 1958, na cidade de Santos epela sua vivência com o litoral.

Talvez, no entanto, a concepção de suas criações tenha uma relação mais profunda, fundamentada na sua capacidade de observação e de amor ao detalhe. Isso é perceptível na sua Série Negra, regida pelas reentrâncias e pela articulação de movimentos.

Existe uma alusão direta a seres marinhos, como corais e esponjas, mas essa leitura mais figurativa não deve impedir que se veja o seu trabalho como um exercício plástico em busca de um diálogo inquieto entre aquilo que se deseja expressar e o que se atinge.

Surge assim um expressivo refletir sobre aquilo que a arte é em sua essência: uma exploração de possibilidades. As peças que a artista realiza pedem para ser tocadas justamente por se fundamentarem na ambivalência da dialética entre aquilo que está fora e o que está dentro.

A discussão que Iná Uehara estabelece é de natureza plástica, não temática. A presença do negro, a onipresença da curva, a existência do vazio e a capacidade de extrair o máximo de obras de proporções geralmente modestas têm em si a capacidade de gerar indagações, força motriz maior da arte.

Os desafios futuros apontam para várias direções. Além da necessidade primordial de prosseguir com as pesquisas técnicas, torna-se importante pensar no aumento das dimensões das obras realizadas. Essa idéia, principalmente quando se pensa na Série Negra, pode gerar resultados cada vez mais significativos e instigantes.

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

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